Novela em Vinte Capítulos
Primeiro: A mulher da minha vida
Dona Maria de Lurdes Santos, sem profissão, residência desconhecida, 10% dos dentes, todos sem qualquer serventia além de trazer dor (que ela livra com querosene). Filhos: não quer falar sobre isso, marido: qualquer um que se deite com ela, feia como ela disse mas já foi muito bonita. muito mesmo.
Dona Maria de Lurdes mostrou os peitos para mim.
Perguntou se eu queria me casar com ela. Disse que esperava por uma certa mulher mas a proposta era tentadora. Perguntou se eu queria come-la. Disse que não mas agradeci como se fosse a uma dama. Pediu um cigarro que lhe dei de bom grado. Disse que já foi muito bonita, muito bonita. Viera de Sertãozinho. Não bebia para ficar bêbada, era só pra passar o frio. Pediu uns trocados, não lhe dei nada. Perguntou se eu queria come-la. Disse que não como se fosse a uma dama. Perguntou se eu era viado. Lhe dei outro cigarro. Perguntou meu nome. respondi com atenção. Perguntei o dela. Me respondeu como se lembra-se de uma canção antiga, que a muito não escutara. Perguntou qual era a minha. Não entendi a pergunta, ela não entendeu a resposta. Disse que eu era bonito. Lhe disse que ela já foi muito bonita. Ela disse que gosta de forró, e me chamou para dançar. Disse que não sabia dançar. Ela me chamou de viado do caraio. Pediu um cigarro, e saiu batendo o pé.
Mais a frente, Claudeir, outro de sertãozinho pergunta:
Maria, posso te comer?
E ela disse:
Só vô dá para aquele viado ali, apontando para mim.
Dona Maria de Lurdes, tinha os peitos mais bonito que eu já ví.
Segundo: O que sobrou do céu
Francisco Cunha Vieira Silva, veio de Ilhéus para ser padre em São Paulo. Bem, foi o que ele disse a mãe quando tomou a decisão de vir para São Paulo: Quero Ser Padre. A mãe até perguntou porque ele iria para São Paulo para isso, se na cidade ele poderia entrar em alguma ordem. Mas ele explicou que era o chamado de Deus o levaria para São Paulo. E a mãe se calou.
Mas Francisco não queria ser Padre. Ele queria era casar com Joana, filha do caseiro da casa de praia dos pais. Claro, uma relação que os pais não aceitariam. O Pai diria: tu vai ser advogado e casar com mulher rica. A mãe seria mais incisiva: Joana já foi puta. Todo mundo sabe. Só deixei ela ficar lá porque gosto muito dos pais deles, gente de bem, que não merece tamanha decepção na vida. Mas Francisco sabia disso. Sabia que ela já havia se deitado com muitos, mas para isso ele não se importava. Se importava mesmo era que amava Joana. E largaria tudo para ficar com ela.
A Mãe aceitou, e fez o pai aceitar também a decisão do filho. Com lágrimas se despediu do filho na rodoviária. Francisco se encontrou com Joana e disse: Simbora comigo Joana, pra São Paulo. Ela disse sim.
Quando aqui chegaram, viveram por um longo tempo com a mesada que o pai enviara todo mês. Mas tão logo descobriram que Francisco não estava em nenhum seminário, cortaram-lhe a mesada. O pai o deserdou, a mãe quis que ele voltasse. Não voltou. Já contava com isso, e a tempos estava se dedicando a fazer garrafas que compunham desenhos com areias coloridas, imagens de sua terra, a qual ele vendia pelas feiras da cidade. O dinheiro era pouco, mas se Joana entendesse que não poderia mais sustentar seus hábitos de cabelereiros, janteres, cinemas e compras e quem sabe, arruma-se um emprego também, poderiam viver bem aqui em São Paulo.
Mas Joana não entendeu. Largou Francisco pra casar com um português.
E francisco não entendeu também. Começou a beber. Logo perdeu tudo o que tinha e começou a vagar pelas ruas da cidade. Foi quando uns franciscanos o recolheram, lhe deram abrigo e comida, e como Francisco disse, lhe deram a ajuda para encontrar a paz do senhor. Logo foi ordenado, e hoje além de seu hobby de fazer garrafas com areias coloridas, dá conselhos espirituais para algumas prostitutas da Santa Ifigênia… inclusive a Joana, que esta tendo uma carreira mais promissora nas ruas de São Paulo, do que nas ruas da Bahia…
Terceiro: A sorte que nos espera
Quando Dona Preta entrou naquele comôdo três por dois, o cheiro meio incenso de mirra, meio carne queimada, deu lugar a um odor mais leve, algo cítrico ou mais fresh, sei lá.
Ela se sentou na minha frente e disse: se aveche não.
Eu pensei: me avechar do quê? Mas ela disse. Tava na cara que via mais do que eu, ou melhor, via nada. Mas eu nunca dou o braço a torcer nestas coisas. Fico sempre esquisito, com este quite no olho esquerdo, sinal clássico de nervosismo.
É mulher? Foi direto ao ponto.
É não. Falei convicto. É dinheiro… quer dizer, é meio mulher, meio dinheiro….
Robaram ocê menino… Falou com tanta convicção que eu pensei que havia mesmo sido furtado…
Não… eu acho que não…
Oxê… então quié? disse estranhamente contrariada.
Bom… quer dizer, é o seguinte. Eu quero saber quanto eu preciso para me casar com a minha noiva… fui claro e decidido. A dúvida vinha me atormentando a meses. Eu sempre guardei meu dinheiro para me casar com Joana, desde o tempo da Vila Matilde, quando a gente ainda tinhas nossos 14, 15 anos. Comprei carro, já dei entrada em uma casa, trabalho no mesmo lugar á 8 anos, mas sempre temo: se eu casar com Joana, vou ter como sustenta-la?
A menina é rica é? Perguntou como se ouvisse meus pensamentos.
Não… quer dizer, não é pobre, porém não é rica…
Ela olhou para fora por um momento. O Metrô passou bem ao lado da janela, quase chegando na estação Arthur Alvim. “Vou pegar ônibus lotado para voltar” pensei enquanto dona preta olhava para fora da janela como se estivesse em transe.
Quando o segundo metrô passou, dona preta saiu do transe. Olhou para mim e jogou os búzios. Olhou para eles e fez careta. Olhou para mim e olhou para os búzios de novo.
Casa com essa moça não… os búzios tá falando. Moça é infiel, não dá para ser boa mãe para seus filhos e nem boa esposa pro cê.
Fiquei em choque. O que aquela mulher estava falando? Já levantei e nervoso, defendi a honra de minha noiva. Dona Preta apenas cruzou os braços e me olhou com seriedade. Sai de lá batendo as portas.
Não quis mais saber destas coisas. Casei-me com Joana alguns meses depois, por insistência da familia dela. Alguns anos depois, já com os filhos crescidos descobri que Dona Preta estava certa, Joana era uma mulher leviana e constantemente me traia.
Mas não pensei em voltar e pedir desculpa para Dona Preta não. Ela nem sequer me reconheceria, depois de tantos anos.
Sai do emprego que permaneci por 18 anos. Com o dinheiro da rescisão, comprei um apartamento perto da estação Arthur Alvim. E todos os dias, a tardinha, olho para fora e vejo os metrôs passando. Tenho certeza que um dia descubro, o que foi exatemente que Dona Preta viu para mim…
Quarto: A Dona do Bonde
Dona Ivanir pegava o bonde só para sentir a mão dos rapazes tocar na sua quando eles desciam ou subiam. Isso foi em uma outra época como ela diz. Hoje as coisas são bem mais diferentes. Nem bonde tem.
Certa vez, em seu velhos tempos de menina, um rapaz bem apessoado e muito bonito, fez bem mais que pegar em sua mão. Ele conversou com ela. Perguntou em que grupo escolar ela estudava. A chamou de broto e a deixou ruborizada. Tinhas seus 17 anos e nunca um rapaz foi tão ousado assim.
Desceu com ela na Rua dos Trilhos. Ela já ficava nervosa com tamanha indescrição. Quis se livrar dele mas ele só desistiu depois de leva-la para casa. No dia seguinte, lá estava ele, de cabelos finamente cortados e um buquê de flores entre os braços. Quis logo falar com o pai e pediu naquele dia mesmo a mão de sua filha em casamento. Era de boa familia, o pai tinha comércio logo alí na Rua da Mooca e era velho conhecido do pai da moça.
Marcou-se o casamento para o mês das noivas, na Igreja do Bom Pastor. Todos foram convidados e aquele seria o casamento do ano!
Mas dona Ivanir não queria casamento nenhum. Ela gostava mesmo era de pegar o bonde para sentir as mãos dos rapazes nas suas. As amigas disseram que aquilo não era de todo mal, e mesmo casada podia andar de bonde. Mas Ivanir não quis. Bateu o pé, e o noivo saiu da casa bufando de raiva. “O melhor partido da região!” disse o pai. A mãe chorava e chorava na cozinha. Ivanir, só queria ir dormir logo para amanhecer o dia e pegar o bonde para o colégio.
E pegou o mesmo bonde durante mais dois meses. Tiraram o bonde das ruas. E Ivanir ficou inconsólavel. Os ônibus novos era barulhentos, cheios de janelas e portas que de nada serviam, pensava ela. Tinha tanto odio dos ônibus que só saia de casa á pé ou de carro.
Mas assim aconteceu. E o bonde que dona Ivanir pegou depois disso foi da idade, que a levou até a solteirice de seus 40 anos.
Mas dona Ivanir não reclama. Casou com o Antenor, o cobrador mais conhecido da linha Penha-Lapa, que hoje não existe mais. Casou com o cobrador, mas ainda não perdoa os malditos ônibus “Richa antiga. Deixa eles lá que eu fico aqui.” É o que diz para os que estranham.
Dona Ivanir ainda dá uma risadinha quando um homem pega em sua mão, como o médico ou o enfermeiro. Mas isso ela não fala alto. Os tempos são outros, e nem mais bonde tem.



