Lo que tienes, la tiera, ou lo corazón?
No Carnaval de Oruro, Nito conheceu Joana. Ela não gostava de sua terra, nem de seu povo, Nito não gostava de seu nome: Juanito. Decidiram que antes de se casarem, mudariam-se para o Brasil. Joana queria ver de perto o Cristo Redentor. Juanito, queria conhecer o Pelé. Seu Pérez, amigo da família de Nito, precisava de homens inteligentes para ir para o Brasil trabalhar em grandes empresas. Queria homens casados e com mulheres que pudessem acompanha-los. Nito pediu a mão de Joana a sua mãe que disse: Joana não pode ir. Deve cuidar de mim e de suas irmãs. Joana não tinha pai, trabalhava em um posto de gasolina na beira da estrada e sua mãe era doente. Nito concordou, abaixou a cabeça e foi embora. Lá fora, Joana o encontrou e disse: Vou com você. Carmecita já tem quase 13 anos. Já pode trabalhar. Nito concordou, abaixou a cabeça e foi embora.
Na semana seguinte, Nito e Joana estariam no Brasil. A mãe de Nito lhe dera um crucifixo. O pai, lhe dera uma arma. Ele a escondeu entre suas melhores roupas, colocou em uma sacola de pano e encontrou Joana no local marcado. Ela estava de chinelos e trouxera com ela, um embrulho. Era tudo o que tinha. Ao passar pela fronteira da Bolívia, Joana chorou. Nito a abraçou e disse: Vamos nos casar no próximo mês.
No ônibus todos diziam: São Paulo é melhor que o Rio de Janeiro. Joana queria descer em São Paulo, junto com os outros. Nito queria conhecer Pelé. Desceram em São Paulo.
Começaram a trabalhar os dois, em uma fábrica de sapatos. Moravam junto com outras pessoas em um galpão atrás da fábrica. Quando receberam o pagamento, Joana comprou um chinelo laranja. Nito, comprou um cd pirata. Uma noite, Nito descobriu que não estava em São Paulo. Estava em uma cidade chamada Poá. Era perto de São Paulo, mais ainda assim não era São Paulo. Um noite então, ele e seus amigos decidiram ir para São Paulo. O encarregado os levou. Voltaram apenas as 5 da manhã. Joana brava, empurrou Nito do colchão que dormia. Nito olhou para ela, se levantou, e foi lá para fora. Logo após começaram a trabalhar. Á noite, Nito pegou Joana pelo braço e a levou para São Paulo. Joana se alegrou ao ver as luzes da cidade. No centro da cidade, pararam em um bar e se embriagaram. Perderam a hora, o ônibus e o dinheiro. Perderam o rumo também, o nome do lugar que moravam, os documentos.
Na rua, aprenderam aonde dormir. Aprenderam aonde comer. Abraçados, riam juntos em frente as vitrines. Quando o frio chegou e os albergues viviam lotados, Nito comprava uma garrafa de pinga. Dava para Joana beber, mas ele bebia apenas um pouco, e tomava conta de Joana, que ora o chingava, ora chorava, ora bebia.
Certa vez, Nito bateu em um mendigo que tentou pegar Joana. O mendigo se foi, mas voltou com amigos. Nito com uma garrafa quebrada esfaqueou um deles. Os outros fugiram e a polícia chegou. Levaram ele preso. No carro de polícia, viu Joana alí parada, que apenas olhava para ele. Friamente. Quando fecharam a porta, ela se virou e se foi. Ele gritou por ela. E gritou. E gritaria até Joana voltar. Mas tomou um tapa de um policial e se calou.
Um Juiz o mandou de volta para a Bolívia. Passou alguns anos presos e voltou para casa. Para todos, disse que Joana morreu. Cuidou da mãe de Joana e se casou com Carmecita, que era mais feia que Joana, porém falava pouco.
Quando perguntado por que voltou para a Bolívia, Juanito dizia: O frio. Apenas isso. Algumas vezes pensou em voltar para o Brasil e procurar por Joana, mas os anos passaram e deixaram Nito com medo. De Joana, nada tem além da saudade, que quando aperta faz Nito tirar do bolso uma figurinha do Pelé que conseguiu no Brasil. Ele olha para ela e supira. Calado, a guarda de novo no bolso e bate no peito. Como que quisesse abafar uma dor conhecida. Ou um grito calado.



